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Manchetes Obesidade

Temos evidências suficientes para afirmar que perder peso reduz desfechos cardiovasculares?

Escrito por Ícaro Sampaio

Não há dúvidas de que a obesidade é um importantíssimo fator de risco para doenças cardiovasculares (DCV). Além de contribuir diretamente para outras condições de risco, incluindo dislipidemia, diabetes tipo 2 e hipertensão, a obesidade também leva ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares de modo independente dos demais fatores de risco. Mas, será que nós temos evidências suficientes para afirmar que perder peso reduz desfechos CV? 

Até recentemente, a principal associação entre perda de peso e redução de risco cardiovascular vinha dos estudos com cirurgia bariátrica. O famoso estudo prospectivo, não randomizado, SOS ( Swedish Obese Subjects) publicado em 2007, envolveu 2.010 indivíduos obesos submetidos à cirurgia bariátrica e 2.037 indivíduos controle obesos pareados simultaneamente recebendo tratamento habitual. A cirurgia bariátrica foi associada a uma redução a longo prazo na mortalidade geral (desfecho primário) de 29%,  redução de infarto do miocárdio de 29% e acidente vascular cerebral de 34%.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2022 no European Heart Journal também sugere que a cirurgia bariátrica reduz a mortalidade e a incidência de doença cardiovascular em comparação com o tratamento não cirúrgico, entretanto, destaca que não há estudos randomizados disponíveis. Apesar de animadores, esses dados não respondem à nossa pergunta de forma exata uma vez que pode-se alegar que a redução de risco cardiovascular é uma consequência dos efeitos metabólicos da cirurgia bariátrica e não da perda de peso de forma isolada.

Em agosto de 2023, recebemos uma notícia que já mudou a história do tratamento da obesidade: a farmacêutica Novo Nordisk anunciou os principais resultados do estudo SELECT, que comparou a semaglutida 2,4 mg por via subcutânea uma vez por semana com placebo para prevenção de eventos cardiovasculares (MACE) durante um período de até cinco anos. O estudo inscreveu 17.604 adultos com 45 anos ou mais com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida, sem histórico prévio de diabetes. O estudo alcançou seu objetivo primário ao demonstrar uma redução de eventos CV de 20% para pessoas tratadas com semaglutida 2,4 mg em comparação com placebo. Seria esse o dado que faltava para encerrar de uma vez por todas a nossa discussão ou é apenas mais uma evidência de que a droga semaglutida oferece proteção cardiovascular?

Chegamos então à conclusão de que seria necessário avaliar qual é a redução de desfechos cardiovasculares em pacientes que perderam peso apenas com mudanças de estilo de vida. O estudo Look AHEAD partiu desse princípio e avaliou o impacto das mudanças de estilo de vida em participantes portadores de diabetes mellitus tipo 2.  O estudo foi interrompido precocemente ( tempo de 9,6 anos) por futilidade. A perda de peso foi maior no grupo de intervenção do que no grupo de controle ao longo do estudo (8,6% vs. 0,7% em 1 ano; 6,0% vs. 3,5% no final do estudo). No entanto não houve redução de eventos cardiovasculares, muito provavelmente porque, como podemos observar, a perda de peso a longo prazo não foi tão importante. 

Sendo assim, não temos até o momento nenhuma evidência robusta de que a perda de peso alcançada apenas com mudanças de estilo de vida, sem o fator confundidor do tratamento farmacológico ou cirúrgico, promova redução de morte de causas cardiovasculares. Isso talvez só reforce a ideia de que MEV de forma isolada não é suficiente para promover perda de peso significativa e sustentada. Mas, essa pequena lacuna científica em nada reduz a relevância dos excelentes resultados alcançados até o momento com a cirurgia bariátrica e, mais recentemente, com a semaglutida. 



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Sobre o autor

Ícaro Sampaio

Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco
Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA
Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE
Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
Editor Endocrinopapers
Médico Endocrinologista no Hospital Esperança Recife e Hospital Eduardo Campos da Pessoa Idosa

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