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Tireoide

Radioiodo no tratamento inicial do Carcinoma Diferenciado de Tireoide: pode ser dispensável?

Escrito por Luciano Albuquerque

O tratamento inicial do carcinoma diferenciado de tireoide (CDT) é cirúrgico (tireoidectomia total ou parcial). A maioria dos pacientes alcança a cura, com sobrevida global em 10 anos acima de 90%. A recorrência varia de acordo com fatores prognósticos, que podem ser avaliados no anatomopatológico. Baseado em tais achados, definimos a necessidade de tratamento complementar com iodo radioativo, bem como a dose a ser administrada.

O uso do radioiodo busca a ablação de possíveis remanescentes tireoidianos, facilitando a detecção precoce de recorrência com base na dosagem sérica de tireoglobulina (Tg). Além disso, pode auxiliar a detecção de eventuais metástases por meio da varredura de corpo inteiro (PCI) pela cintilografia. Finalmente, também pode ter finalidade terapêutica, tratando metástases, sendo nessa indicação empregadas doses mais elevadas.

A maioria dos pacientes com CDT é classificada como baixo risco de recorrência (<5%). Nesses casos, a administração do radioiodo é controversa, pela ausência de benefícios comprovados. Publicações anteriores (estudos HiLo e ESTIMABL1) já demonstraram a eficácia de baixas doses (30mCi) bem como do preparo com TSH recombinante, evitando o hipotireoidismo.

Publicado recentemente na NEJM o estudo ESTIMABL2 randomizou 730 pacientes com CDT de baixo risco (todos <2cm e sem metástases linfonodais) para uso de radioiodo em baixa dose (30mCi) ou não. Após seguimento de 3 anos não houve diferença entre os grupos, com cerca de 4% dos pacientes apresentando sinais de recorrência em ambos. Esse risco foi maior em pacientes com Tg > 1ng/ml no pós-operatório. A presença da mutação BRAF V600E não esteve associada a maior risco de recidiva nesse subgrupo.

O estudo tem como principais limitações a inclusão de pacientes com risco muito baixo de recidiva, com previsível baixa frequência de eventos e o tempo de seguimento relativamente curto. Além disso, trata-se de um estudo aberto e com diferentes definições de desfecho para os grupos (pontos de corte de Tg mais baixos nos tratados com radioiodo, uso apenas de Tg não estimulada no grupo não tratado). Aguardamos os dados do estudo IoN, a ser publicado ainda esse ano, com inclusão de pacientes classificados como baixo risco, porém com tumores de maior tamanho e com micro lesões linfonodais, seguidos por 5 anos. A confirmação dos resultados certamente trará maior precisão na indicação do tratamento complementar do CDT, reduzindo riscos e potencializando benefícios.



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Sobre o autor

Luciano Albuquerque

Preceptor da residência em Endocrinologia do HC-UFPE e da residência em Clínica Média do Hospital Otávio de Freitas. Presidente da SBEM regional Pernambuco no biênio 2019-2020.

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