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Diabetes Manchetes

Jejum intermitente pode promover remissão do DM2?

jejum intermitente
Escrito por Ícaro Sampaio

O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) é uma doença progressiva caracterizada por resistência insulínica e hiperglicemia, cursando com um aumento significativo na mortalidade prematura e redução da qualidade de vida. A terapia hipoglicemiante intensiva é necessária ao longo do tempo, com a maioria dos pacientes necessitando de dois ou mais medicamentos para atingir e manter as metas de controle glicêmico. Em 2021, um consenso da American Diabetes Association propôs um novo critério para definir remissão do DM2 como sendo hemoglobina glicada A1c (HbA1c) inferior a 6,5% medida pelo menos 3 meses após a interrupção da farmacoterapia hipoglicemiante. O mesmo consenso recomenda medições subsequentes de HbA1c, pelo menos anualmente, para confirmar a manutenção da remissão.

O jejum intermitente é uma modalidade que propõe a restrição da ingesta alimentar em horários predefinidos. O paciente deve seguir períodos de jejum intercalados com períodos de alimentação ad libitum. A dieta The Chinese Medical Nutrition Therapy (CMNT) é uma nova abordagem dietética proposta com base no jejum intermitente envolvendo 5 dias de jejum seguidos de 10 dias de reintrodução de alimentos do dia a dia. A dieta CMNT contém alimentos diários, como trigo, cevada, arroz, centeio e aveia, e apresenta cargas glicêmicas, calorias e carboidratos reduzidos, bem como aumento de ácidos graxos insaturados.

Recentemente, foi publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism um estudo clínico randomizado e controlado para investigar a eficácia da dieta CMNT na indução da remissão do diabetes tipo 2. Foram incluídos pacientes com idade entre 18 e 75 anos; que tinham um índice de massa corporal  entre 18 e 35 e estavam em uso  de medicamentos para DM2 como sulfonilureias, glitinidas, metformina, iDPP4 e  GLP1-RA. Foram excluídos pacientes com histórico de hipoglicemia grave, distúrbios alimentares, cardiopatas e gestantes. Os participantes do grupo intervenção receberam durante 3 meses uma dieta que  incluiu 6 ciclos de 15 dias de intervenção. Cada ciclo incluía 5 dias de jejum modificado (∼840 kcal/dia), durante os quais os pacientes receberam kits CMNT em seu horário regular de refeições.

Ao completar o período de intervenção de 3 meses, mais 3 meses de acompanhamento, 47,2% (17/36) dos participantes alcançaram remissão do diabetes no grupo CMNT, enquanto apenas 2,8% (1/36) dos indivíduos alcançaram remissão no grupo controle ( OR 31,32; IC 95%, 2,39-121,07; p <0,0001). O peso corporal médio dos participantes do grupo CMNT foi reduzido em 5,93 kg (DP 2,47) em comparação com 0,27 kg (1,43) no grupo controle. Após 12 meses de acompanhamento, 44,4% (16/36) dos participantes alcançaram remissão sustentada, com nível de HbA1c de 6,33% (DP 0,87).  A remissão do diabetes foi mais provavelmente relatada naqueles que tinham uma duração mais curta do diabetes, menor HbA1c basal e estavam em uso de menos antidiabéticos no início do estudo.

Apesar de nos apresentar resultados interessantes, o estudo não evidencia que o jejum intermitente é superior a outras formas de restrição calórica, uma que ele não comparou duas dietas com ingestão calórica semelhante, sendo uma delas na forma de jejum intermitente. De toda forma, os resultados do ensaio nos fazem refletir se, diante da dificuldade que nossos pacientes com DM2 apresentam para aderir às mudanças do estilo de vida, seria mais factível um plano baseado na utilização de uma dieta com períodos intercalados de restrição e alimentação habitual.

 

Referência:

Xiao Yang, Jiali Zhou, Huige Shao, Bi Huang, Xincong Kang, Ruiyu Wu, Fangzhou Bian, Minghai Hu, Dongbo Liu, Effect of an Intermittent Calorie-restricted Diet on Type 2 Diabetes Remission: A Randomized Controlled Trial, The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2022

 

 



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Sobre o autor

Ícaro Sampaio

Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco
Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA
Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE
Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
Editor Endocrinopapers
Médico Endocrinologista no Hospital Esperança Recife e Hospital Eduardo Campos da Pessoa Idosa

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